Arquivo da categoria: Ano Santo da Misericórdia (08/12/2015 – 20/11/2016)

AS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ

Por Pe Fernando Genú SCV 

aIntrodução

“Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que faço em nome de meu Pai dão testemunho de mim; mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem.” (Jo 10,25-26) Escutar a voz de Jesus: esse é o objetivo desta meditação. Vejam como Ele fala! Vejam como Ele encontra forças para falar! Ele tem realmente “palavras de vida eterna” (Jo 6,68). Que estas 7 palavras, tão somente algumas das 70 x 7 palavras que Jesus disse neste mundo, penetrem nossos corações. E nos ensinem a falar. E nos ensinem a viver. Continue lendo AS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ

Homilia do Domingo de Ramos

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Padre Fernando Genú SCV 

Uma breve meditação ao celebrar esta Missa que serve de porta de entrada para os acontecimentos da Semana Santa. Já escutei várias vezes os padres se queixarem de que muitos vivem a “Semana Santa” como “Semana de repouso, de descanso, de feriadão” e com isso se perde a dimensão da mesma. Não quero começar com condenações ou com acusações, porém com um apelo: não percam essa excelente ocasião de viver esta semana com os olhos postos em Jesus. Descansem, sim, mas façam-no junto a Jesus. Mudem um pouco de ar, sim, mas não se esqueçam de que da paixão, morte e ressurreição do Senhor se expele um “ar” capaz de encher as nossas vidas com um novo vigor e entusiasmo. Enfim, “reinventem” esta semana, com a consciência de que o Senhor há, certamente, de estar no centro dela, assim como de todos os dias de nossas vidas.

Creio que hoje, de modo especial, estamos chamados a que as leituras –particularmente o Evangelho da Paixão– sejam atentamente ouvidas e conservadas, meditadas no nosso coração, guiados pela Mãe de Jesus, Nossa Senhora da Reconciliação, que tão bem o sabia fazer.

Vemos que Jesus culmina o seu caminho até Jerusalém, chegando ao monte das Oliveiras. Nesse caminho de “ascensão ao monte”, Jesus encontrou-se com muitas pessoas e foi elevando a sua dignidade, a sua humanidade. Ofereceu a água viva à samaritana, a luz a um homem cego de nascimento, a vida ao já morto Lázaro, seu amigo. Mas surpreendentemente, nessa subida, são muitos os que não querem “subir”. E assim:

Querem secar a Água, a Água Viva.
Querem apagar a Luz, a verdadeira Luz do mundo.
Querem extinguir a Vida, fechando o mundo ao eterno.

Hoje veremos com antecipação os eventos da Paixão do Senhor, a crueldade da qual são capazes os seres humanos quando centrados nos seus ideais mesquinhos e que terminam fechando os seus corações a Deus. Condenam o inocente. Crucificam o justo. O justo que entrega livremente a sua vida por amor à humanidade, à mesma humanidade que o condena. Mistério do amor que nos remente a amar o mistério de um Deus que tudo faz pelo homem.

Assim, a Igreja nos convida a “fazer memória” dos acontecimentos da nossa salvação. A lembrar-nos desse acontecimento único e definitivo da morte do Senhor, que na Teologia leva o nome de “ephapax” (de uma vez para sempre). A gravar com fogo nas nossas mentes que na Cruz ficou estampado o nosso valor: valemos o sangue de Cristo, o sangue do Deus encarnado! Já não tem sentido buscar o nosso valor em outras coisas! Fomos resgatados a um alto preço! Esse preço manifesta o quanto valemos tu e eu. Não nos esqueçamos disso. Da “falta de memória” brota uma busca incansável de si mesmo que nunca alcança o porto desejado.

Olhemos para o passado (contemplemos, assombremo-nos com a maldade, choremos com a humildade do Filho do Homem que se humilhou até a morte para salvar-nos);

Voltemos para o presente das nossas vidas (vivo consciente do meu valor? O que tem a morte de Cristo a ver com a minha vida? Vivo esse amor no meu dia a dia? Como o mistério da minha salvação ilumina o cotidiano da minha vida?);

Projetemo-nos para o futuro (o que devo mudar na minha vida para ser mais como Cristo? O que fazer para ser mais de Cristo? O que fazer para educar-me a “ter memória” das coisas realmente importantes na vida?).

Que a memória do passado, nos leve a assumir melhor o nosso presente, construindo com a aceitação amorosa das Cruzes do dia a dia a nossa Páscoa eterna, onde contemplaremos cara a cara o crucificado-ressuscitado e poderemos dizer-lhe um grande “obrigado”. Mas… não esperemos até lá para agradecer. Que as nossas vidas possam ser um grande “obrigado”.

Para viver esse memorial descrito acima, com seu dinamismo de memória-atualização dos acontecimentos, que estes dias sejam especialmente marianos, vividos em companhia de Maria. Contemplemos os acontecimentos desde sua ótica, tratemos de partilhar um pouquinho desse coração transpassado pela espada do sofrimento ao ver o Seu Filho desgarrado pela dor e pela injustiça. Aprendamos dela também a esperar, com a confiança de que quem faz memória de que Deus nunca abandonou o homem, tem a certeza de que Ele não permitirá que a morte tenha a última palavra em sua vida.

Ao mesmo tempo, contemplemos como Deus realiza a sua misericórdia. A sua misericórdia ficou por três horas pendurada numa Cruz, no alto de uma montanha. Talvez para que a vissem os homens daquele então. E mudassem de vida, se convertessem. Do alto de uma montanha ela passou às paredes das nossas casas, edifícios e instituições. Para que nós a continuemos vendo. Claro, como quem quer contemplar o amor, com o olhar de quem vê por trás dela o horizonte de Ressurreição.

Que todos tenham uma santa Semana Santa!

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2016

«“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13).

As obras de misericórdia no caminho jubilar»

  1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada

Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.

Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

  1. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseías (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.

Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.

Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a misericórdia divina. Nele sobressai «a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Evangelii gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que «sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese» (Ibid., 164). Então a Misericórdia «exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar» (Misericordiӕ Vultus, 21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d’Ele. E faz isto na esperança de assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.

 

  1. As obras de misericórdia

A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia. É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo. Por isso, expressei o desejo de que «o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (Ibid., 15). Realmente, no pobre, a carne de Cristo «torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga… a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós» (Ibid., 15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3, 5); e mais ainda, quando o pobre é o irmão ou a irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.

Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de onipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco «sereis como Deus» (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem atualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os «ricos», de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os ouçam!» (Lc 16, 29). Esta escuta ativa preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda.

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).