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Homilia da Quinta-Feira da Ceia do Senhor e Lava-pés

Padre Fernando Genú SCV

“Como pagarei ao Senhor todo o bem que Ele me fez?” (Sal 115)

Foi muito triste começar a Semana Santa com o atentado na Bélgica. Ainda por cima, um atentado que está supostamente fundamentado em causas religiosas. Tenho a certeza de que Cristo volta a ser crucificado em ocasiões assim. É a maldade que parece dominar a vida do ser humano, a injustiça que quer fazer justiça em nome de “um deus” manipulado, caricaturizado. Deus não é assim! E não são poucas as pessoas que vêm me perguntar: o que desejar aos participantes do Estado Islâmico? Como perdoar a alguém que te ameaça, que te tira o sono, que te faz sentir inseguro? E que ainda por cima não está arrependido?

Meus caros irmãos e irmãs, quando falamos que a maldade é um mistério, o “mysterium iniquitatis” (mistério da iniquidade), estamos dizendo que vai além da nossa compreensão. Não conseguimos encontrar respostas suficientes para o mistério do mal. Mas temos uma pista enorme para tratar de decifrá-lo, partindo de outro mistério: o mistério do amor. Na Cruz, esses dois mistérios se cruzam, se enfrentam. E, para vencer, só produzindo um grande estouro, como o estouro de uma estrela que forma uma Super Nova. A “Super Nova”, a “Super e Boa Nova” da Ressurreição é o fruto do estouro que na Cruz vence o mal.

Talvez aqui entendamos o porquê da necessidade de olhar sempre para a Cruz. Nela experimentamos o mal. Mas também a outra cara, o perdão. Nela o sofrimento é porta de entrada a um mistério maior, o mistério do sacrifício, da entrega voluntária e livre pelo humano, pelo verdadeiramente humano. Crucifica-se “o homem”, mas a olhos atentos é “o homem” que está crucificando o pecado.

Toda essa introdução, meus irmãos, é para dizer que hoje, Quinta-Feira Santa, tudo nos remete ao que há de fundamentar a Cruz: o Amor. Esse fundamento sem o qual a Cruz se torna simplesmente um instrumento de tortura sem sentido. Uma derrota. Esse amor fundamento que tanto contrasta com o mal… e que é o único remédio ao mesmo. É o remédio aos atentados e traições da vida. E hoje celebramos o amor. Amor que tem um nome: Jesus.

São João, o discípulo Amado, o discípulo do Amor, resume à perfeição o que foi a vida de Cristo neste mundo: “tendo chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Acredito que nenhuma realidade mais do que o amor possa fazer uma síntese da vida de Cristo. Cristo passou pelo mundo amando. Suas palavras e obras, gestos, são manifestações desse amor.

Esse amor se expressa hoje no gesto de lavar os pés dos seus discípulos. Você já imaginou se Jesus se encontrasse contigo, se ajoelhasse diante de você e começasse a lavar os teus pés? Quem aqui não reagiria como Pedro? “Tu, lavar-me os pés, jamais!” Como não deixar-se dominar pelo desconcerto ao ver que o próprio Deus veio “lavar os pés” da humanidade. Que Ele veio qual servo. Veio mostrar-nos que o amor se faz concreto no serviço, em endireitar o que está torcido, em regar o que está seco, em limpar o que está sujo. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que Jesus veio para algo muito maior do que limpar-nos os pés. Veio para limpar o nosso coração. Isso é mais difícil. Mas para isso tem que começar pelos pés.

Os pés são símbolo do caminhar dos homens pelo mundo. Pelos nossos pés vamos de um lugar para o outro e não são poucos os lugares nos quais nos sujamos. Andar pelo mundo pode trazer muita sujeira, muitas feridas. Pisamos pedras, vidros, poças de água suja… às vezes estão tão sujos os nossos pés que desistimos de limpá-los. Acostumamo-nos a tê-los sujos, imundos. Os “pés” são símbolo da humanidade “em busca” que vai de um lado para o outro a fim de chegar a algum lugar. E nessa “busca” não são poucos os desencontros e desencantos, os egoísmos e enganos, as quedas e frustrações. Jesus ao lavar os pés dos discípulos não só os limpa e renova, não só os cura, mas também os lança a caminhar de novo pelas trilhas deste mundo, agora com a experiência interior da redenção, da reconciliação, de uma humanidade renovada por Ele. Jesus limpa, cura renova e envia!

Ao começar estes dias santos do Tríduo Pascal, lembremo-nos que somos lavados pelo Sangue do Cordeiro, que nos lava de todo pecado. Que o seu Sangue é capaz de limpar qualquer sujeira, pois é fruto de um amor de predileção pela humanidade. Jesus eleva a nossa humanidade com a sua morte –gesto supremo de amor– de uma maneira insuspeitada. E nos lança pelos caminhos do mundo. Ele na frente e nós atrás, como seguidores do seu exemplo, como discípulos, com uma Cruz estampada em nosso olhar e gravada em nossos corações. E nos lança com a missão de lavar os pés aos demais. De servir. De entender que o egoísmo, o viver para atender somente –ou quase exclusivamente– as nossas necessidades é a solidão mais triste que há, pois não amamos e não permitimos que os demais nos amem. Jesus quer continuar lavando os pés dos homens, os meus e os teus, e é certamente por isso que celebramos hoje a Missa do “lava-pés”.

Também fazemos memória hoje da Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. Têm sua origem juntos pois uma não pode viver sem o outro. O Sacerdócio é para a Eucaristia, pois todo sacerdote há de tender a Ela, como meta e fim de sua vida, como a sua razão de ser; e a Eucaristia reclama o sacerdócio, pois sem Ele, simplesmente Cristo em Corpo, Alma, Sangue e Divindade, não continuaria fazendo-se presente no mundo. Quis Deus valer-se de pessoas frágeis e pecadoras. De pessoas com os pés sujos. É por isso que o sacerdote há de querer sempre lavar os pés, ou melhor, deixar que Cristo os lave.

Cresçamos em nosso amor pela Eucaristia. Crianças, amem Jesus Eucaristia! Adultos, aprendam das crianças! E também os peço encarecidamente: Rezem pelos sacerdotes. Pelos já ordenados, pelos que se preparam e pelas vocações do futuro. Peçam por sua fidelidade, para que possam –em meio as suas dificuldades– viver como outros Cristo no mundo, lavando –especialmente no Sacramento da Confissão– os pés dos demais.

Lembrando-nos de tudo isso, como não exclamar com o salmista: “Como pagarei (retribuirei) ao Senhor todo o bem que Ele me fez?” A resposta é simples, ainda que difícil de ser vivida: amando! Assim devemos retribuir todo o bem que o Senhor fez e faz por nós.
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Hoje, ao terminar a Missa, acompanharemos simbolicamente o Senhor nesses momentos de angústia no monte de Getsêmani e na sua injusta prisão. Faremos uma adoração eucarística. Temos aqui uma ocasião muito concreta de amar. Não fiquemos dormindo como os Apóstolos. Peçamos que essa “sonolência” que tantas vezes se manifesta nas nossas vidas como um esquecimento de Deus, vá embora e encontre em nós uma atitude de luta, de perseverança de um ardor suscitado pelo amor, pelo amor de Deus que nunca “dorme” em sua relação conosco.

Queria finalizar com uma história que Dom Gregório, Bispo de Petrópolis, contou ao final de sua emotiva e fraterna homilia na Missa Crisma hoje de manhã:

“Um idoso estava apressado, pois estava atrasado e tentava pegar um taxi. Depois de várias tentativas, subiu em um e deu rapidamente o endereço ao taxista. O taxista lhe perguntou:
– O local é uma Casa de Repouso, não é mesmo?
– Sim, lá mora a minha esposa. Estou apressado pois tenho que chegar lá às 7:30 para tomar café da manhã com ela – respondeu o ancião.
O taxista, vendo que o senhor idoso estava notoriamente ansioso, pelo medo de perder a hora, continuou a conversa.
– Que bom – disse o taxista. O senhor vai visitá-la com frequência?
– Sim, todos os dias vou às 7:30 para tomar café da manhã com ela e fazer-lhe uma visita. Ela já leva 5 anos na casa de repouso. Ela tem Alzheimer e já perdeu quase completamente a memória.
Cheio de pena o taxista perguntou:
– Desculpe-me se sou indelicado, mas ela ainda consegue se lembrar dos horários? Pois se não, qual a sua pressa de chegar às 7:30 em ponto?
O ancião lhe respondeu:
– Não, ela já não lembra das horas. Tampouco de mim. Nem do meu nome ou de quem sou. Mas o que importa é que eu sim me lembro dela. Do que ela foi e de quem ela é. É por isso que chego sempre pontualmente.”
Meus caros irmãos, ainda que nos esqueçamos de Deus, Deus é como esse esposo apaixonado… que nunca se esquece de nós.

Homilia do Domingo de Ramos

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Padre Fernando Genú SCV 

Uma breve meditação ao celebrar esta Missa que serve de porta de entrada para os acontecimentos da Semana Santa. Já escutei várias vezes os padres se queixarem de que muitos vivem a “Semana Santa” como “Semana de repouso, de descanso, de feriadão” e com isso se perde a dimensão da mesma. Não quero começar com condenações ou com acusações, porém com um apelo: não percam essa excelente ocasião de viver esta semana com os olhos postos em Jesus. Descansem, sim, mas façam-no junto a Jesus. Mudem um pouco de ar, sim, mas não se esqueçam de que da paixão, morte e ressurreição do Senhor se expele um “ar” capaz de encher as nossas vidas com um novo vigor e entusiasmo. Enfim, “reinventem” esta semana, com a consciência de que o Senhor há, certamente, de estar no centro dela, assim como de todos os dias de nossas vidas.

Creio que hoje, de modo especial, estamos chamados a que as leituras –particularmente o Evangelho da Paixão– sejam atentamente ouvidas e conservadas, meditadas no nosso coração, guiados pela Mãe de Jesus, Nossa Senhora da Reconciliação, que tão bem o sabia fazer.

Vemos que Jesus culmina o seu caminho até Jerusalém, chegando ao monte das Oliveiras. Nesse caminho de “ascensão ao monte”, Jesus encontrou-se com muitas pessoas e foi elevando a sua dignidade, a sua humanidade. Ofereceu a água viva à samaritana, a luz a um homem cego de nascimento, a vida ao já morto Lázaro, seu amigo. Mas surpreendentemente, nessa subida, são muitos os que não querem “subir”. E assim:

Querem secar a Água, a Água Viva.
Querem apagar a Luz, a verdadeira Luz do mundo.
Querem extinguir a Vida, fechando o mundo ao eterno.

Hoje veremos com antecipação os eventos da Paixão do Senhor, a crueldade da qual são capazes os seres humanos quando centrados nos seus ideais mesquinhos e que terminam fechando os seus corações a Deus. Condenam o inocente. Crucificam o justo. O justo que entrega livremente a sua vida por amor à humanidade, à mesma humanidade que o condena. Mistério do amor que nos remente a amar o mistério de um Deus que tudo faz pelo homem.

Assim, a Igreja nos convida a “fazer memória” dos acontecimentos da nossa salvação. A lembrar-nos desse acontecimento único e definitivo da morte do Senhor, que na Teologia leva o nome de “ephapax” (de uma vez para sempre). A gravar com fogo nas nossas mentes que na Cruz ficou estampado o nosso valor: valemos o sangue de Cristo, o sangue do Deus encarnado! Já não tem sentido buscar o nosso valor em outras coisas! Fomos resgatados a um alto preço! Esse preço manifesta o quanto valemos tu e eu. Não nos esqueçamos disso. Da “falta de memória” brota uma busca incansável de si mesmo que nunca alcança o porto desejado.

Olhemos para o passado (contemplemos, assombremo-nos com a maldade, choremos com a humildade do Filho do Homem que se humilhou até a morte para salvar-nos);

Voltemos para o presente das nossas vidas (vivo consciente do meu valor? O que tem a morte de Cristo a ver com a minha vida? Vivo esse amor no meu dia a dia? Como o mistério da minha salvação ilumina o cotidiano da minha vida?);

Projetemo-nos para o futuro (o que devo mudar na minha vida para ser mais como Cristo? O que fazer para ser mais de Cristo? O que fazer para educar-me a “ter memória” das coisas realmente importantes na vida?).

Que a memória do passado, nos leve a assumir melhor o nosso presente, construindo com a aceitação amorosa das Cruzes do dia a dia a nossa Páscoa eterna, onde contemplaremos cara a cara o crucificado-ressuscitado e poderemos dizer-lhe um grande “obrigado”. Mas… não esperemos até lá para agradecer. Que as nossas vidas possam ser um grande “obrigado”.

Para viver esse memorial descrito acima, com seu dinamismo de memória-atualização dos acontecimentos, que estes dias sejam especialmente marianos, vividos em companhia de Maria. Contemplemos os acontecimentos desde sua ótica, tratemos de partilhar um pouquinho desse coração transpassado pela espada do sofrimento ao ver o Seu Filho desgarrado pela dor e pela injustiça. Aprendamos dela também a esperar, com a confiança de que quem faz memória de que Deus nunca abandonou o homem, tem a certeza de que Ele não permitirá que a morte tenha a última palavra em sua vida.

Ao mesmo tempo, contemplemos como Deus realiza a sua misericórdia. A sua misericórdia ficou por três horas pendurada numa Cruz, no alto de uma montanha. Talvez para que a vissem os homens daquele então. E mudassem de vida, se convertessem. Do alto de uma montanha ela passou às paredes das nossas casas, edifícios e instituições. Para que nós a continuemos vendo. Claro, como quem quer contemplar o amor, com o olhar de quem vê por trás dela o horizonte de Ressurreição.

Que todos tenham uma santa Semana Santa!

HOMILIA DO 5º DOMINGO DA QUARESMA

Pe Fernando Genú SCV

 

A mulher adúltera e a situação atual do país

Tenho pensado e sofrido muito com a situação atual do país. São escândalos atrás de escândalos e parece que ninguém se salva da corrupção e poucos recebem o que merecem pelos seus atos. É triste. Outro dia, inclusive, escutei de uma pessoa que a solução era explodir Brasília, construí-la de novo e dedicá-la a outra coisa, pois com política não deu certo. Reações à parte, o certo é que desejamos –quase todos– que a justiça seja feita. Mas… como fazer justiça?

Alguns se amparam na lei. Outros acham que em um sistema tão corrupto, a solução é fazer justiça com as próprias mãos (seguindo o estilo do “Demolidor”, herói da Marvel). Outros são adeptos de penas rigorosas a crimes hediondos. Pensam que a solução é a proporcionalidade: “matou, que morra!” Mutilação, castração química… enfim… a verdade é que o mal, essa maldade corrupta que vemos, tem essa capacidade de suscitar o pior em nós. Às vezes pensamos que pagando o mal com o mal seria justo. Cheguei a ver para preparar a homilia uma cena de apedrejamento no Youtube. Não recomendo que a vejam. Fiquei chocado. Não consigo pensar em um criminoso que mereça isso. Não há adultério –com toda sua carga de deslealdade, duplicidade e cumplicidade com o mal– que seja proporcional a essa pena. Mas, o triste, o mais injusto ainda, é que cheguem a fazer isso em nome de Deus.

Assim era em Israel. No Israel da época de Jesus. Tinha-se mantido um costume de uma época onde o Deus misericordioso ainda era confundido com uma espécie de “Deus justiceiro”. Pecados como a blasfêmia, a necromancia, a idolatria e o adultério eram banidos com o apedrejamento. De tal forma, pretendia-se a eliminação do mal de Israel. Mas, curiosamente, o mal nunca foi banido.

Gostaria de fazer algumas observações:

1) É impossível, nesta vida, eliminar o mal pela raiz. (Parábola do joio e do trigo).

O próprio Senhor Jesus nos alertou ante a tentativa de eliminar o mal do mundo. O mal cresce com o bem, como o joio e o trigo. É o mistério da iniquidade, do pecado. O mistério da liberdade tão frágil e ferida do homem, capaz do mal. Enquanto existir o homem ferido pelo pecado, haverá o mal. O mal existe (obviamente não me movo em termos filosóficos no momento), é real, “palpável”. Esse mal é separação de Deus –que é Amor– e que é personificado naquele que primeiramente afastou-se de Deus, arrastou outros anjos consigo e faz de tudo para que essa onda de mal nos afogue: o demônio, Satanás, o diabo. Sim, ele existe e talvez só sejamos capazes de explicar atos tão, mas tão maus, perversos, se realmente acreditarmos que ele está por trás deles. Mas o fato de constatarmos que o mal exista e acompanhe a existência humana neste mundo, jamais deve levar-nos a tornar-nos cúmplices dele. Jamais!

2) Cuidado com não confundir o pecador com o pecado.

Ao tentar eliminar o mal, às vezes confundimos o mal com o homem, o pecado com o pecador. Devemos “apedrejar” o pecado e não o pecador. Sei que é difícil, mas uma correta antropologia iluminada pela redenção em Cristo nos leva a apostar sempre pela conversão do ser humano. Deus aposta pelo homem. Não consigo ver outra consequência senão essa ao aproximar-me ao realismo da crucifixão. Devemos tratar sempre de “salvar” o pecador, de educá-lo, de reformá-lo. Entendendo que esse pecador muitas vezes somos nós mesmos.

3) No Evangelho de hoje aprendemos que a misericórdia de Deus vai além da justiça (não atropela a justiça, mas a eleva a um plano mais nobre).

Imagino a cara de desconcerto dos fariseus que queriam colocar Jesus à prova. Jesus mostrou que, entre tantas outras coisas, era mais esperto do que eles. Começando pelos mais velhos, os fariseus foram embora tão logo escutaram a resposta de Jesus. Ninguém pôde atirar a primeira pedra, pois todos tinham algum pecado, pois todos eram pecadores. E aí a afirmação da misericórdia, um passo além da justiça (ou do que o homem pensa que é a justiça). “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais.” Jesus não relativiza o pecado de adultério. Conhece melhor do que nós a maldade do ato. Mas perdoa. Perdoa e afirma: “Não peques mais”. Jesus distingue o pecado da pessoa da pecadora. Absolve o pecador, exortando-o à vida nova da conversão.
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Pois bem, iluminados pelo Evangelho, voltemos à situação atual. Cuidado quando você pensar em “atirar uma pedra” em alguém. Cuidado quando você o faz: palavras, gestos, atos e fofocas. A pedra pode voltar sobre você. Criticar, sim, exigir justiça, também. Perdoar, sempre. Desejar mal, não. Ignorar, tampouco. Desprezar, menos.

Ao mesmo tempo, antes dizia que a experiência de contato com a maldade tem essa capacidade de suscitar o pior em nós, o nosso “lado escuro”. Se bem –oxalá– não desejamos que ninguém seja apedrejado, sim somos capazes de condenar os demais. De desejar-lhes o mal. Frases do tipo “eu quero que você exploda”, “some, desaparece” ou até mesmo “bandido bom é bandido morto” (esta última sendo uma frase típica dos demagogos do momento), expressam no fundo um coração que foi sendo devorado pelo mal que se condena nos outros. Lembremos: pedras, não! Neste caso as pedras não edificam nada, só destroem… e não o mal, mas aquele que pode ajudar a acabar com ele: o homem, uma vez que o mal se vence no próprio coração ferido do homem. Aí começa a batalha que, obviamente, tem muitíssimas repercussões na sociedade!

Mas, paradoxalmente, situações como as que vivemos também são capazes de suscitar o melhor de nós mesmos. Numa cultura de morte, lutemos por uma cultura de vida. Na miséria de muitos, lutemos por condições cada vez mais dignas para o ser humano. Na escassez da honestidade, sejamos honestos. Na ignorância e imbecilidade, optemos pela educação, pela formação. Nas ofensas ou disputas, não respondamos com violência, incitando ainda mais o conflito (atitude típica dos movimentos ideológicos de inspiração ateia). Em um mundo avaro, sejamos generosos. No materialismo reinante, sejamos testemunhas de Deus. Na dificuldade do perdão, sejamos os primeiros a perdoar. Sendo justos, mas não esquecendo-nos nunca da misericórdia, de ir ao coração do pecador, de lembrar-se que ele continua sendo imagem de Deus, apesar de tê-la ido escurecendo à força de pecados. Sempre será parte do DNA do cristão o nadar contra a correnteza do mal que trata de arrastar tudo que encontra na sua frente. Sejamos bons nadadores com as armas da fé e os tremendos recursos dos quais Deus dotou a nossa humanidade. Usemos esses recursos para o bem.

Bom, que o Senhor nos ajude a ver nos pecadores nossos irmãos, nossos irmãos mais novos, talvez, como se nós fôssemos o irmão mais velho do filho pródigo. E torçamos para que voltem à casa do Pai… ajudemo-los a isso com nossa oração e exemplo.