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DOMINGO XXX ORDINÁRIO

DOMINGO XXX ORDINÁRIO

“Senhor, que eu possa ver!”

 

I. A PALAVRA DE DEUS
II. APONTAMENTOS
III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ
IV. PADRES DA IGREJA
V. CATECISMO DA IGREJA
VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO FIGARI

 

I. A PALAVRA DE DEUS

Jer 31, 7-9: “O Senhor salvou o seu povo”

Assim diz o Senhor:

«Gritem de alegria por Jacó, regozijem-se pelo melhor dos povos; proclamem, louvem e digam:

O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel.

Eu os trarei do país do norte, vou reuni-los dos limites da terra.

Entre eles há cegos e coxos, mulheres grávidas e as que já deram à luz:
uma grande multidão retorna.

Partiram chorando, eu os guiarei de volta entre consolos; eu os levarei a correntes de água, por um caminho plano em que não tropeçarão.

Serei um pai para Israel, Efraim será o meu primogênito».

 

Sal 125, 1-6: “O Senhor foi grande conosco, e estamos alegres”

Quando o Senhor mudou a sorte de Sião,
   parecíamos sonhar:
   a nossa boca se encheu de risadas,
   e a nossa língua de canções.

Até os pagãos diziam:
   «O Senhor foi grande com eles».
   O Senhor foi grande conosco,
   e estamos alegres.

Que o Senhor mude a nossa sorte,
   como as torrentes do Negueb.
   Os que semeavam com lágrimas
   ceifam entre canções.

Ao ir, iam chorando,
   levando a semente;
   ao voltar, voltam cantando,
   trazendo seus feixes.

 

Heb 5, 1-6: “Cristo, Sumo Sacerdote, foi posto por Deus em favor dos homens”

Irmãos:

Todo sumo sacerdote, escolhido entre os homens, é constituído para representar os homens no culto a Deus: para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados.

Ele pode compreender os ignorantes e extraviados, já que ele mesmo está envolto em fraquezas; por causa delas, tem que oferecer sacrifícios tanto por seus próprios pecados, como pelos do povo.

Ninguém pode atribuir a si mesmo esta honra: Deus é quem chama, como no caso de Aarão.

Tampouco Cristo se atribuiu a si mesmo a dignidade de sumo sacerdote, esta lhe foi conferida por aquele que lhe disse: «Você é o meu Filho: eu hoje o gerei», ou como diz outra passagem da Escritura: «Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem do sacerdócio de Melquisedec».

 

Mc 10, 46-52: “Mestre, que eu possa ver”

 

Naquele tempo, quando Jesus saía de Jericó acompanhado de seus discípulos e de muita gente, o cego Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado na beira do caminho, pedindo esmola. Quando ouviu dizer que era Jesus Nazareno que estava passando, começou a gritar:

— «Jesus, Filho de Davi, tenha compaixão de mim».

Muitos o repreendiam e mandavam que se calasse. Mas ele gritava mais:

— «Jesus, Filho de Davi, tenha compaixão de mim».

Jesus se deteve e disse:

— «Chamem-no».

Chamaram o cego, dizendo-lhe:

— «Ânimo, levante-se, porque Jesus está chamando você».

O cego soltou o manto, deu um salto e se aproximou de Jesus. Jesus lhe disse:

— «O que quer que faça por você?»

O cego lhe respondeu:

— «Mestre, que eu possa ver».

Jesus lhe disse:

— «Anda, sua fé te curou».

No mesmo momento o cego recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.

II. APONTAMENTOS

Deus realiza grandes façanhas em favor da descendência de Jacó, libertando-a da escravidão do Egito e fazendo-a entrar na terra prometida. Depois de enfrentar uma nova escravidão por causa de sua infidelidade, Deus libertou novamente Israel do exílio babilônico e voltou a guiar o povo de volta à terra de seus pais (1ª. leitura). O Salmo responsorial proclama, por causa deste grande acontecimento libertador: «Quando o Senhor mudou a sorte de Sião, parecíamos sonhar: a nossa boca se encheu de risadas, e a nossa língua de canções.» (Sal 125, 1-2). É a alegria transbordante que experimenta quem retorna a Jerusalém depois do longo exilo.

Como ponto culminante das antigas libertações realizadas por Deus a favor de seu povo, o Senhor Jesus deve realizar a grande e definitiva libertação, a da escravidão do pecado e da morte, que é seu fruto. Jesus Cristo é “Deus que salva” o povo de seus pecados (ver Mt 1, 21). Ele é o Filho unigênito de Deus que por obra do Espírito Santo se encarnou no seio da Virgem Maria, assumindo plenamente a natureza humana para realizar a redenção. Ele é o Sumo Sacerdote (2ª. leitura) escolhido por Deus para reconciliar todos os seres humanos com seu Pai.

No Evangelho vemos o Senhor Jesus a caminho de Jerusalém, onde se oferecerá a Si mesmo no Altar da Cruz como sacrifício de reconciliação para o perdão dos pecados (ver 2 Cor 5, 18-19). O caminho que Jesus percorre passa por Jericó, uma cidade que distava uns trinta quilômetros de Jerusalém.

À saída de Jericó, um cego encontrava-se sentado à beira do caminho, pedindo esmola. O evangelista descreve a razão de seu nome: Bartimeu, quer dizer, o filho de Timeu. Ele, ao inteirar-se de que era o Senhor que passava pelo caminho, ficou a gritar: «Jesus, Filho de Davi, tenha piedade de mim!». Ao dirigir-se ao Senhor com este título o cego o reconhece como Aquele que teria que nascer da descendência de Davi, o Messias esperado (ver 2 Sam 7, 12.16). Evidentemente já se difundira entre as pessoas do povo a crença de que Jesus era o Cristo.

É interessante notar que no Evangelho de Marcos diversos episódios começam apresentando Jesus a caminho de Jerusalém (ver Mc 8, 27; 9, 33-34; 10, 17; 10, 32). O evangelista parece sugerir, deste modo, que a vida cristã é um caminhar com Jesus, que ser discípulo é seguir Jesus pelo caminho que, passando pela Cruz, levará o discípulo a participar da glória de sua Ressurreição.

Bartimeu estava sentado à beira do caminho, como que simbolizando seu estado de marginalização da Vida verdadeira devido a sua cegueira, concebida como manifestação visível de algum pecado invisível. O Senhor escuta a súplica daquele que implora piedade e lhe concede o milagre que lhe pede. Atendendo a sua súplica não só cura sua cegueira física, libertando-o assim de seu estado de miséria e prostração, como também o liberta de seu pecado: «tua fé te salvou».

A alegria e gratidão do cego após a cura se expressa no seguimento comprometido: «seguiu-o pelo caminho».

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

O fruto do pecado é a escotosis. O que quer dizer esta estranha palavra? Este termo procede do grego skotos, que se traduz como escuridão, trevas. Por escotosis nos referimos à escuridão em que se vê inundada a razão humana como consequência do pecado. É, portanto, uma cegueira mental e espiritual que nos impede de ver a realidade com objetividade, tal e como é verdadeiramente, tal e como Deus a vê.

A escotosis produz em nós uma visão equivocada e distorcida da própria identidade. Por esta cegueira ou obscurecimento perco de vista “quem eu sou”, deixo de me reconhecer e de reconhecer os outros como criaturas de Deus. Deste modo perco de vista quem é Deus e por isso deixo de glorificá-lo como é devido (ver Rom 1, 21-22).

Quem é presa desta cegueira cria seu próprio mundo apoiado em fantasias e ilusões, vive no autoengano e no subjetivismo. A escotosis também nos impede de ver com clareza para onde nos orientam os profundos desejos que se aninham em nosso coração, assim como o modo adequado de responder a eles. Padecendo desta cegueira, seduzidos pelas ilusões, caímos em uma leitura equivocada desses desejos que podemos chamar também dinamismos fundamentais. Este erro de leitura ou decodificação nos leva a acreditar que podemos saciar nossa sede de Infinito e nossa nostalgia de Deus seja com o prazer (como aconteceu com a samaritana: Jo 4, 18), ou com o ter (como aconteceu com o jovem rico: Mc 10, 17-22) ou com o poder (como aconteceu com São Tiago e João: Mc 10, 35-45).

Quantas vezes agimos movidos ou seduzidos pelos ídolos do possuir-prazer, do ter e do poder! Nessas situações somos como cegos sentados à beira do Caminho da Vida verdadeira, cegos que preferimos tristemente viver de esmolas, de migalhas que nunca nos saciarão, deixando que as “vozes” do mundo calem o clamor do coração em vez de “gritar mais forte” para pedir ao Senhor que nos cure de nossa “cegueira”, que nos dê sua luz e seu mesmo olhar para podermos ver a nós mesmos, ver os outros e ver todas as coisas como Ele as vê!

Com efeito, só podemos curar esta cegueira indo ao Senhor, que disse de si: «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará na escuridão, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12). Só acolhendo o Senhor e a luz que Ele derrama em nossas mentes podemos ver com clareza, sem nos enganar a nós mesmos, autoconvencendo-nos de que “está bem” algo que na realidade não o está, sem andar “raciocinando” e atuando sob o impulso e o império das paixões desordenadas.

O Senhor Jesus é «a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo» (Jo 1, 9), luz que ilumina a ti e a mim. Se você quer ver com a luz do Senhor, se quer compreender realmente o mistério que você é, assim como o belíssimo sentido de sua existência, se quer responder às ânsias profundas de Infinito que você experimenta palpitar com força em seu coração, se quer responder a sua fome e nostalgia de Deus, não se canse de procurar nele essa luz e de lhe pedir insistentemente como Bartimeu: «Mestre, que eu veja!» (Mc 10, 51). Assim, renovando dia a dia esta humilde súplica, fazendo com que esse grito seja mais forte que as “vozes” da ilusão, da mentira e do engano que procuram seduzir você, procure nutrir-se dos ensinamentos do Senhor Jesus, assimilando e fazendo próprios os critérios de Jesus para iluminar assim todos os seus passos, suas opções e decisões da vida cotidiana.

E como Bartimeu, uma vez curado ou curada de sua cegueira pela luz que o Senhor derrama em sua mente e coração, não deixe de segui-lO cada dia, com perseverança e gratidão, pelo caminho que conduz à Vida plena e eterna.

São Teófilo da Antioquia: «Veem Deus os que são capazes de contemplá-lo, porque têm os olhos do espírito abertos. Porque todo mundo tem olhos, mas alguns os têm obscurecidos e não veem a luz do sol. E não é porque os cegos não vejam que se tem que dizer que o sol deixou que luzir, isto terá que ser atribuído a si mesmo e a seus próprios olhos. Da mesma maneira você tem os olhos de sua alma obscurecidas por causa de seus pecados e más ações».

 

São Gregório Magno: «Pois é precisamente a humanidade que fica representada por este cego sentado na beira do caminho e mendigando, porque a Verdade diz dela mesma: “Eu sou o caminho” (Jo 14, 6). Quem não conhece o resplendor da luz eterna, certamente é cego, mas se começar a crer no Redentor, então “está sentado à beira do caminho”. Se, acreditando nele, descuida de pedir o dom da luz eterna, se rechaça pedir-lhe, permanece à beira do caminho; e não se crê necessitado de pedir… Que todo aquele que reconhece que as trevas fazem dele um cego, que todo aquele que compreende que lhe falta a luz eterna, clame do fundo de seu coração, com todo o seu espírito: “Jesus, filho de Davi, tenha compaixão de mim”».

Santo Agostinho: «Meus parentes, vizinhos e amigos começaram a agitar-se. Os que amam sigilo me enfrentam. “Ficou louco? Que radical você é! Por ventura os demais não são cristãos? Isto é uma tolice, é uma loucura”. E a turba grita essas coisas para que nós, os cegos, não clamemos».

V. CATECISMO DA IGREJA

Jesus é o Senhor

448: Com muita frequência, nos evangelhos, há pessoas que se dirigem a Jesus chamando-O de «Senhor». Este título expressa o respeito e a confiança dos que se aproximam de Jesus e esperam Dele socorro e cura. Sob a moção do Espírito Santo, ele expressa o reconhecimento do mistério divino de Jesus. No encontro com Jesus ressuscitado, ele se converte em expressão de adoração: «meu senhor e meu Deus» (Jo 20, 28). Então toma uma conotação de amor e de afeto que se tornará própria da tradição cristã: «É o Senhor!» (Jo 21, 7).

 

Jesus escuta nossa oração

2616: A oração a Jesus já foi escutada por Ele durante seu ministério, através dos sinais que antecipam o poder de sua Morte e de sua Ressurreição: Jesus escuta a oração de fé expressa em palavras, ou em silêncio. A súplica premente dos cegos: «Tenha piedade de nós, Filho de Davi!» (Mt 9, 27) ou «Jesus, filho de Davi, tenha compaixão de mim!» (Mc 10, 48) foi retomada na tradição da Oração a Jesus: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador». Curando enfermidades ou perdoando pecados, Jesus sempre responde à prece do que lhe suplica com fé: «Vai em paz, sua fé te salvou!».

 

A oração a Jesus

2665: A oração da Igreja, alimentada pela Palavra de Deus e pela celebração da liturgia, ensina-nos a orar ao Senhor Jesus. Embora esteja dirigida sobretudo ao Pai, em todas as tradições litúrgicas inclui formas de oração dirigidas a Cristo. Alguns salmos, segundo sua atualização na oração da Igreja, e o Novo Testamento põem em nossos lábios e gravam em nossos corações as invocações desta oração a Cristo: Filho de Deus, Verbo de Deus, Senhor, Salvador, Cordeiro de Deus, Rei, Filho amado, Filho da Virgem, Bom Pastor, nossa Vida, nossa Luz, Nossa Esperança, nossa Ressurreição, Amigo dos homens…

 

2666: Mas o Nome que tudo contém é aquele que o Filho de Deus recebe em sua encarnação: JESUS. O nome divino é indizível para os lábios humanos, mas o Verbo de Deus, ao assumir nossa humanidade, entrega-nos isso e nós podemos invocá-lo: «Jesus», «YHWH[1] salva». O Nome de Jesus contém tudo: Deus e o homem e toda a Economia da criação e da salvação. Dizer «Jesus» é invocá-lo em nosso próprio coração. Seu Nome é o único que contém a presença que significa. Jesus é o ressuscitado, e qualquer pessoa que invoque seu Nome acolhe o Filho de Deus que o amou e se entregou por ele.

 

2667: Esta invocação de fé bem singela foi desenvolvida na tradição da oração sob formas diversas no Oriente e no Ocidente. A formulação mais habitual, transmitida pelos monges do Sinai, da Síria e do monte Athos é a invocação: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de nós, pecadores». Esta conjuga o hino cristológico de Flp 2, 6-11 com o apelo do publicano e do mendigo cego. Mediante ela, o coração se abre à miséria dos homens e à Misericórdia de seu Salvador.

VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO FIGARI (conforme textos publicados)

«Como não sofrer quando se sente a angústia de um mundo que morre pela falta da luz da verdade; pois não pode ser de outra forma quando se percebem os impactos de um tempo em que os homens clamam pelo calor do amor. Mas do amor autêntico, que vem de Deus, não dessas caricaturas ou deformações vulgares. Do amor que vem de Cristo Jesus, não das falsificações que se vendem em qualquer parte que são como o barro que turva a água cristalina. Como se faz sentir a necessidade da luz que dissipe as trevas do hoje dos homens, de um fogo ardente que faça pulsar amorosamente os corações humanos!»

«Cada um de nós tem uma missão fundamental. Para isso foi escolhido. Para isso foi convocado à Igreja, e pelo Batismo ficou incorporado à missão da Igreja, a fazer presente a Boa Nova aos homens, para irradiar luz, para irradiar calor a um mundo que morre de frio na escuridão. Para prolongar no hoje de nossas realidades a missão de Jesus. Para ser testemunha do amor, para participar da prolongação histórica da dinâmica do amor».

»O Santo Padre recordava, não faz muito, que Cristo “nos convocouem sua Igrejapara que contribuamos na fase de peregrinação à reconciliação universal realizada por Ele na Cruz”».

»Estamos chamados, pois, a ser trabalhadores da reconciliação. Artífices da Civilização do Amor. Trabalhadores pela reconciliação com Deus, por nos reconciliarmos conosco mesmos, por nos reconciliarmos com nossos irmãos, e inclusive com o próprio mundo. Reconciliação radical que tem que nascer de um coração comprometido. Reconciliação totalizante que abrange todas as realidades humanas».

»Nessa mesma ocasião o Papa apresentava todo um programa para nossa resposta: “Vocês contribuirão ‘internamente, como um fermento, com a santificação do mundo’ e ‘para tornar Cristo visível perante os outros principalmente com o testemunho da vida e com o fulgor da fé, da esperança e da caridade’”. Isto é um convite concreto, a todos nós que estamos aqui e que somos Igreja. Um convite para acolher no coração ao Cristo Redentor, para assumi-lo na vida, em todos os momentos da vida real de todos os dias. Para viver amorosamente todos os segundos de nossa existência».

 

 



[1] Iahweh

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM “Deus promove o crescimento”

I. A PALAVRA DE DEUS

Ez 17, 22-24: “Abate as árvores soberbas e exalta as árvores humildes”

Eis o que diz o Senhor Deus:

— «Pegarei eu mesmo da copa do grande cedro, dos cimos de seus galhos cortarei um ramo, e eu próprio o plantarei no alto da montanha. Eu o plantarei na alta montanha de Israel. Ele estenderá seus galhos e dará fruto; tornar-se-á um cedro magnífico, onde aninharão aves de toda espécie, instaladas à sombra de sua ramagem.

Então todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o Senhor, que abate a árvore soberba, e exalta o humilde arbusto, que seca a árvore verde, e faz florescer a árvore seca.

Eu, o Senhor, o disse, e o farei.».


Sal 91, 2-3.13-16: “É bom dar-te graças, Senhor”

É bom louvar ao Senhor

e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo;
proclamar, de manhã, a vossa misericórdia,
e, durante a noite, a vossa fidelidade,

Como a palmeira, florescerão os justos,

elevar-se-ão como o cedro do Líbano.
Plantados na casa do Senhor,
nos átrios de nosso Deus hão de florir.

Até na velhice eles darão frutos,

continuarão cheios de seiva e verdejantes,
para anunciarem quão justo é o Senhor,
meu rochedo, e como não há nele injustiça.

 

2 Cor 5, 6-10: “No desterro ou na pátria, esforçamo-nos para agradar ao Senhor”

Irmãos:

Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão.

Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe. Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo.

Mc 4, 26-34: “A menor semente torna-se mais alta que as demais hortaliças”

Naquele tempo, disse Jesus às pessoas:

— «O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. Dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber. Pois a terra por si mesma produz, primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga. Quando o fruto amadurece, ele mete-lhe a foice, porque é chegada a colheita».

Dizia ele, também:

– «A quem compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos? É como o grão de mostarda que, quando é semeado, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra».

Era por meio de numerosas parábolas desse gênero que ele lhes anunciava a palavra, conforme eram capazes de compreender. E não lhes falava, a não ser em parábolas; a sós, porém, explicava tudo a seus discípulos.

II. APONTAMENTOS

Encontramo-nos com duas parábolas nas quais o Senhor fala do crescimento do “Reino de Deus”.

Com a primeira comparação ressalta seu crescimento silencioso e contínuo, quase inevitável. A explicação da parábola não foi recolhida no Evangelho, seja porque Cristo mesmo não a explicou ou porque o evangelista não considerou necessária sua transmissão, devido a sua fácil ou conhecida interpretação.

O Senhor ensina que o Reino prometido por Deus e esperado pelos judeus, o Reino que seria instaurado por meio de seu Messias, terá um início muito simples, até insignificante. A partir desse início, uma vez que a semente foi semeada, possui um dinamismo próprio, desenvolvendo-se por si mesmo, “automaticamente” (o evangelista utiliza a palavra grega autómate). Independentemente da ação ou inação do agricultor, quer durma ou se levante, “a terra dá o fruto por si mesma”. Não será o homem quem fará germinar ou desenvolver-se a semente ou o Reino, mesmo que certas condições externas sejam necessárias para favorecer sua germinação e crescimento, e sim a própria força intrínseca que leva. São Paulo compreende bem esta realidade quando escreve: «Pois que é Apolo? E que é Paulo? Simples servos, por cujo intermédio abraçastes a fé, e isto conforme a medida que o Senhor repartiu a cada um deles: eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer.» (1Cor 3, 5-6).

Assim, o Reino de Deus, uma vez inaugurado pelo Senhor Jesus com sua presença e pregação, com o tempo chegará necessariamente a sua maturidade. Nada nem ninguém poderá deter seu desenvolvimento e desdobramento, e com o passar do tempo a semente produzirá uma colheita abundante. Então, «quando o grão estiver no ponto, passa-se a foice, porque chegou a colheita».

Para falar do início “insignificante” deste Reino — insignificante aos olhos humanos —, o Senhor acrescenta outra parábola, em que compara o Reino de Deus com uma semente de mostarda, «a menor semente» de todas as conhecidas na Palestina.

As sementes de mostarda, com efeito, são muito pequenas. Redondas e de consistência dura, têm entre um a dois milímetros de diâmetro. Ao cair na terra e desenvolver-se, chega a ser «mais alta que as demais hortaliças», chegando a converter-se em uma árvore de três a quatro metros de altura. Nisto consiste justamente a lição do Senhor, o ensinamento que quer transmitir: do menor o Reino de Deus passará a ser o maior. Embora em seus começos sejam poucos os que o aceitem, chegarão a ser multidões. A isso se refere o Senhor quando diz que «estende de tal modo os seus ramos, que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Com efeito, a imagem de uma árvore que cresce e serve de abrigo às aves do céu já tinha sido utilizada como metáfora para referir-se aos súditos do Reino que Deus estabelecerá acima dos outros (ver 1a. leitura; assim também Ez 31, 6; Dan 4, 10ss).

O Reino de Deus, no Senhor Jesus, teve um início aparentemente insignificante. Mas a força e potência que esta “semente” (ver Jo 12, 34) escondia aos olhos humanos, manifestadaem sua Ressurreição, levaram o Reino de Deus a um crescimento espetacular ao longo dos séculos. Esse Reino é a Igreja, que ao longo dos séculos abrigou em seus ramos homens e mulheres de toda nação, raça ou cultura.

 

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Mesmo que em nossos dias se tenha o conhecimento científico apropriado que permita compreender o processo bioquímico que faz com que uma semente brote, cresça e produza fruto, no fundo o dinamismo e desdobramento da vida continua sendo um mistério para o homem. Mais ainda é o crescimento da semente divina semeada no campo do coração de quem a acolhe com fé. Por mais que seja imperceptível, o crescimento se leva a cabo. Por mais que a gente “durma”, o crescimento e a maturação seguem seu processo, “sem que a gente saiba como”.

Esta realidade espiritual certamente não constitui um convite ao ócio, a desentender-se de qualquer ação, a cruzar os braços no empenho pela própria santificação. De maneira nenhuma! Deve-se garantir condições apropriadas para o crescimento e maturação da semente. Isso é o que compete ao agricultor: preparar bem a terra, adubá-la, regá-la, e depois, proteger os brotos e a planta de qualquer agente externo que possa danificá-la ou destruí-la. Se por seu esforçado trabalho o agricultor proporciona as condições adequadas, o crescimento da semente se dará por sua própria potencialidade, pela força e virtude contidas na semente. Na vida espiritual a ação que produz o crescimento e transformação interior é certamente de Deus, obra de sua graça, mas também é necessária cooperação humana para que essa semente da vida divina encontre terra boa em que se possa desdobrar. A potência do amor e da graça divina jamais trabalharão contra a liberdade humana, ela requer nossa generosa cooperação, ainda quando em comparação com a ação divina a ação humana seja insignificante.

Dado que o crescimento do Reino de Deus em nós depende de Deus, pressupondo nossa cooperação, como Ele é quem dá o crescimento, não podemos pretender impor o ritmo nós mesmos. Quantas vezes nos desalentamos porque “não crescemos espiritualmente como queríamos”, porque “em vez de avançar parece que retrocedo”, porque “esta fraqueza eu já deveria ter superado há muito”, porque a estas alturas “já deveria ser santo”? Somos nós que marcamos o ritmo do crescimento, ou é Deus? Devemos saber esperar de Deus esse crescimento, sem nos impacientar com nossas quedas, sem nos impacientar porque não vemos que crescemos ao ritmo que deveríamos crescer. Deixemos isso nas mãos de Deus! Cabe-nos, dia a dia, dispor a terra, arrancar toda má erva que não deixará de brotar, regá-la, para que a semente da vida divina germine como Deus quer que germine. Pretender impor o ritmo de meu crescimento espiritual é como querer acelerar o crescimento e o desdobramento de uma semente. Nosso crescimento não está em nossas mãos, e sim nas mãos de Deus. Pretender crescer por mim mesmo e na medida de meus esforços, é prescindir de Deus, é cairem soberba. Quemespera crescer segundo suas próprias forças não demorará para desalentar-se no caminho da santificação e conformação com o Senhor Jesus.

Permaneçamos humildes. Se paciente e perseverantemente fazemos o que nos cabe, Deus fará o resto. Não pretendamos impor o ritmo a Deus, deixemos isso em suas mãos, confiantemente. Estejamos seguros de que sua força e sua graça atuarãoem nós. Enão nos desesperemos ou nos desalentemos se acaso nos parece que “não crescemos” ou retrocedemos. Mesmo no meio de nossas quedas crescemos, se recorremos à misericórdia divina com humildade, pedimos perdão e voltamos para a luta de cada dia. Embora nos pareça que não crescemos, aos olhos de Deus estamos crescendo, se permanecermos fiéis na luta. Inclusive nossas repetidas quedas nos levam a crescer, pois não poucas vezes as lições de humildade são extremamente necessárias para progredir no caminho da vida espiritual. O importante é recolocar-nos sempre de pé, acudir humildes ao Senhor, voltar para a batalha, perseverar, e confiar muito em Deus e em sua ação em nós.

 

IV. PADRES DA IGREJA

São João Crisóstomo: «Apresentou primeiro a parábola das três sementes, perdidas de diversos modos, e outra aproveitada, no qual se manifestam três graus diferentes, segundo a fé e as obras. Aqui, entretanto, trata só da semente aproveitada: “Dizia do mesmo modo: O Reino de Deus é semelhante a um homem que semeia…”».

São Gregório Magno: «O homem joga a semente na terra, quando põe uma boa intenção em seu coração; dorme, quando descansa na esperança que dão as boas obras; levanta-se de dia e de noite, porque balança entre a prosperidade e a adversidade. A semente germina sem que o homem se dê conta, porque, apesar de não poder medir seu incremento, a virtude que uma vez concebeu avança para seu perfeito desenvolvimento. Quando concebemos, pois, bons desejos, jogamos a semente na terra; somos como a erva, quando começamos a agir bem; quando chegamos à perfeição somos como a espiga; e, enfim, ao nos afirmar nesta perfeição, é quando podemos ser representados pela espiga cheia de fruto».

Santo Ambrósio: «O próprio Senhor é um grão de mostarda… Se Cristo for um grão de mostarda, como é que é o menor e como cresce? Não é em sua natureza, mas em sua aparência que chega a ser grande. Querem saber como é o menor? “Vimo-lo sem figura nem beleza” (Is 53,2). Percebam porque é o maior: “É o mais belo dos homens” (Sal 44,3). Com efeito, quem não tinha beleza nem esplendor chegou a ser superior aos anjos (Heb 1,4) ultrapassando a glória de todos os profetas de Israel… É a menor de todas as sementes, porque não veio com realeza, nem com riquezas, nem com a sabedoria deste mundo. Pois bem, como uma árvore, desenvolveu de tal maneira o topo elevado de seu poder que dizemos: “Sob sua desejada sombra me sentei” (Cant 2, 3)».

 

V. CATECISMO DA IGREJA

O Reino de Deus

543. Todos os homens são chamados a entrar no Reino. Anunciado primeiro aos filhos de Israel, este Reino messiânico é destinado a acolher os homens de todas as nações. Para ter acesso a ele, é preciso acolher a Palavra de Jesus:

«A Palavra do Senhor compara-se à semente lançada ao campo: aqueles que a ouvem com fé e entram a fazer parte do pequeno rebanho de Cristo, já receberam o Reino; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe» (LG 5).

544. O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde. Jesus foi enviado para «trazer a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4, 18). Declara-os bem-aventurados, porque «é deles o Reino dos céus» (Mt 5, 3). Foi aos «pequenos» que o Pai se dignou revelar o que continua oculto aos sábios e inteligentes. Jesus partilha a vida dos pobres, desde o presépio até à cruz: sabe o que é sofrer a fome, a sede e a indigência. Mais ainda: identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor ativo para com eles a condição da entrada no seu Reino.

546. Jesus chama para entrar no Reino, por meio de parábolas, traço característico do seu ensino( ver Mc 4, 33-34). Por meio delas, convida para o banquete do Reino (ver Mt 22, 1-14), mas exige também uma opção radical: para adquirir o Reino é preciso dar tudo (ver Mt 13, 44-45). As palavras não bastam, exigem-se atos (ver Mt 21, 28-32). As parábolas são, para o homem, uma espécie de espelho: como é que ele recebe a Palavra? Como chão duro, ou como terra boa? (ver Mt 13, 4-9) Que faz ele dos talentos recebidos? (ver Mt 25, 14-30) Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. É preciso entrar no Reino, quer dizer, tornar-se discípulo de Cristo, para «conhecer os mistérios do Reino dos céus» (Mt 13, 11). Para os que ficam «fora» (Mc 4, 11), tudo permanece enigmático (ver Mt 13, 10-15).

567. O Reino dos céus foi inaugurado na terra por Cristo, e resplandece para os homens na palavra, nas obras e na presença de Cristo». A Igreja é o gérmen e o princípio deste Reino. As suas chaves são confiadas a Pedro.

 

VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO FIGARI (conforme textos publicados)

«“Venha a nós o vosso Reino”. Podemos nos perguntar com São Gregório de Nisa: “O que busca esta prece?”. Em certo sentido pode-se entender que o Reino é a realidade dinâmica de Deus e de seu Plano, que operando na existência e mediando o gratuito convite divino, é acolhida na vida humana pela fé, pela esperança e pela caridade.

»Trata-se de uma situação que já começou, e que no entanto ainda espera sua consumação. “O Reino de Deus está diante de nós. Aproxima-se no Verbo Encarnado, anuncia-se através de todo o Evangelho, chega na Morte e na Ressurreição de Cristo. O Reino de Deus chega na Última Ceia e, pela Eucaristia, está entre nós. O Reino de Deus chegará na Glória quando Jesus Cristo o devolver a seu Pai”, explica o Catecismo da Igreja (2816). Vivemos essa misteriosa realidade do ‘já’ mas ‘ainda não’, em que a Igreja peregrina espera em perspectiva escatológica, e ao mesmo tempo não se separa “de sua missão neste mundo… Porque desde Pentecostes, a vinda do Reino é obra do Espírito do Senhor ‘A fim de santificar todas as coisas levando a plenitude sua obra no mundo’” (2818).

»Como membros da Igreja recebemos a missão, cada um a partir do próprio chamado e estado, de anunciar o amor e a reconciliação do Reino. A ele aderimos a partir de  nossa mesmidade[1]. Essa adesão ao Reino implica, para o crente, em uma acolhida do Plano de Deus para a própria vida e para a convivência social. O “venha a nós o vosso Reino” é uma súplica que elevamos ao Pai pedindo-lhe que nos conceda a graça de viver essa adesão ao divino Plano em nossa vida e em nossas ações, cotidianamente, dede as próprias raízes de nosso ser.

»O povo fiel de nossas terras canta belamente, também, este desejo cada vez que entoa o Tu reinarás. Neste sentido é interessante a opinião de diversos Padres e comentaristas que vêem uma unidade entre esta petição da Oração Dominical e a seguinte: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu…”. Por exemplo, Tertuliano dizia que: “‘Venha a nós o vosso reino’ se relaciona com ‘seja feita a vossa vontade’, quer dizer, em nós”. O compromisso de tornar realidade o reinado de Deus em nós implica pronunciar um ‘faça-se’ generoso e permanente diante do chamado que o Senhor nos faz, em sintonia com o “Faça-se” de Santa Maria. Quer dizer, aderir-se afetiva e efetivamente a Deus e a seu divino Plano.

»O Reino é vida cristã e é horizonte para o qual nos encaminhar e dirigir nossos afazeres. O Reino é uma expressão que sintetiza uma dimensão fundamental na existência cristã. Pedir que “venha a nós” expressa a consciência de que a força de Deus auxilia nossa fraqueza para nos levar por seus caminhos, vivendo e acolhendo seu Plano de amor e reconciliação».


[1] Mesmidade. Versão do neologismo espanhol “mismidad”. Termo que designa a realidade constitutiva mais profunda do ser humano. É o âmago da identidade ─ única e não repetível ─ de cada ser humano, realidade objetiva que não muda e subsiste para sempre. Constitui o centro do próprio ser e o núcleo de sua unidade pessoal subsistente, que permanece ao longo do devir histórico da pessoa, permitindo-lhe seguir sendo ela mesma e referir-se a sua identidade própria além das mudanças. Dela brotam os dinamismos fundamentais de permanecer e desdobrar-se, que orientam e impulsionam a própria existência à sua plenitude.

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE (“Fazei discípulos batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”)

I. A PALAVRA DE DEUS

Dt 4, 32-34. 39-40: “O Senhor é o único Deus; não há outro”

Moisés falou com o povo, dizendo:

— «Procura cuidadosamente nos tempos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem na terra. Pergunta se houve jamais, de uma extremidade dos céus à outra, uma coisa tão extraordinária como esta, e se jamais se ouviu coisa semelhante. Houve, porventura, um povo que, como tu, tenha ouvido a voz de Deus falando do seio do fogo, sem perder a vida? Algum deus tentou jamais escolher para si uma nação do meio de outra, por meio de provas e de sinais, de prodígios e de guerras, com mão poderosa e braço estendido, e de prodígios espantosos, como o Senhor, vosso Deus, fez por vós no Egito diante de vossos olhos?

Sabe, pois, agora, e grava em teu coração que o Senhor é Deus, e que não há outro em cima no céu, nem embaixo na terra. Observa suas leis e suas prescrições que hoje te prescrevo, para que sejas feliz, tu e teus filhos depois de ti, e prolongues teus dias para sempre na terra que te dá o Senhor, teu Deus.».

Sal 32(33), 4-5.6.9.18-19.20.22: “Ditosa a nação cujo Deus é o Senhor”

A palavra do Senhor é reta,
em todas as suas obras resplandece a fidelidade:
ele ama a justiça e o direito,
da bondade do Senhor está cheia a terra.

A palavra do Senhor fez os céus,
e pelo sopro de sua boca todo o seu exército.
Porque ele disse e tudo foi feito,
ele ordenou e tudo existiu.

Os olhos do Senhor estão pousados sobre os que o temem,
sobre os que esperam na sua bondade,
a fim de livrar-lhes a alma da morte
e nutri-los no tempo da fome.

Nossa alma espera no Senhor,
porque ele é nosso amparo e nosso escudo.
Que vossa misericórdia, Senhor, venha sobre nós,
como a esperamos de vós.

Rom 8, 14-17: “Recebemos um espírito de filhos adotivos”

Irmãos:

Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.

Não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!

O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também somos herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados.

Mt 28, 16-20: “Ide e fazei discípulos todos os povos”

Naquele tempo os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado.

Quando o viram, adoraram-no; entretanto, alguns hesitavam ainda.

Mas Jesus, aproximando-se, disse-lhes:

– Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.

Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi.

Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo».

II. APONTAMENTOS

Cremos, como verdade revelada, que Deus é um e único, que fora d’Ele não há outros deuses (1ª leitura). Como verdade revelada cremos também que Deus, sendo um, é comunhão de três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Três pessoas distintas, não três deuses distintos. São um só Deus, porque possuem a mesma natureza divina.

Deus em si mesmo não é, portanto, um ser solitário nem imóvel: é Comunhão divina de Amor. O Pai desde toda a eternidade se entrega ao Filho, o Filho desde toda a eternidade acolhe o Pai e se entrega também a Ele em um dinamismo de mútua entrega e acolhida que é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo.

Mas, como chegou ao nosso conhecimento este profundo Mistério, impossível de ser conhecido e plenamente compreendido pela simples razão humana? Foi o Filho quem o revelou: «Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.» (Jo 1,18). O Senhor Jesus, o Filho que por nossa reconciliação se fez homem, revelou o Pai e o Espírito Santo, revelou a unidade e a comunhão existentes entre eles.

No Evangelho deste Domingo vemos o Senhor Jesus que, antes de voltar definitivamente para o Pai, encarrega seus Apóstolos de uma missão muito específica: «Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi».

Batizar, do grego baptízó, significa literalmente “submergir”, “introduzir dentro da água”. Também o Senhor foi batizado por João, submerso nas águas do Jordão. O batismo de João era um “batismo de penitência”, devotado àqueles que, arrependidos de seus pecados, queriam inundar ou sepultar na água sua vida antiga para, purificados, renascer e ressurgir para uma nova vida. O Senhor insistiu em ser batizado por João, apesar de n’Ele não haver pecado algum (ver Mt 3, 14-15).

Naquela ocasião o Batista anunciava que, diferente dele, que batizava com água, o Senhor batizaria «com o Espírito Santo» (Mc 1, 7 8). Com efeito, o Batismo oferecido pelo Senhor Jesus é muito superior ao batismo de João, posto que já não é tão somente um símbolo, mas sim realiza verdadeiramente aquilo que simboliza: liberta o homem da culpa original e perdoa seus pecados. Resgata-o da escravidão do mal e marca seu renascimento espiritual, comunicando uma vida nova que é participação na vida de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

O Batismo que o Senhor manda conferir aos que creiam n’Ele submerge não só em água (gesto simplificado e substituído na Igreja latina pela da tripla infusão com água na cabeça do candidato), mas naquele outro “Batismo” de Cristo, o de sua Morte e Ressurreição (ver Lc 12, 50; Mc 10, 38). Por isso seu valor transcende absolutamente ao dos antigos ritos batismais, tanto judeus como também pagãos, que, embora significassem uma purificação interior e uma mudança de vida, não eram mais que abluções incapazes de apagar realmente os pecados e, menos ainda, de efetuar uma transformação radical do pecador. Além disso, o Batismo cristão, pelo poder de Cristo Ressuscitado conferido pelo Senhor aos seus Apóstolos (ver Mt 28, 18-19), é um sinal eficaz que também comunica realmente o perdão dos pecados e confere uma vida nova pelo Espírito Santo. Por uma real transformação interior os «batizados em Cristo» (Gal 3, 27) tornam-se verdadeiramente «filhos de Deus» (ver 1 Jo 3, 2).

O Senhor manda que seus Apóstolos batizem “em nome de….” Isto quer dizer não só “em lugar de”, “em representação de”. Na mentalidade hebraica, o nome de alguém substituía a própria pessoa. Ao ser pronunciado ou invocado o nome de alguém sobre uma coisa, esta ficava intimamente ligada com a pessoa nomeada, passava a ser propriedade dela. O mesmo acontecia com o nome de Deus. Batizar «em  nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» significa, portanto, consagrar a pessoa a Deus, fazê-la pertencer totalmente a Ele, incorporando-a Àquele cujo nome era pronunciado, incorporando-a a Deus, uno e trino. Verdadeiramente o Batismo cristão «significa e realiza a morte ao pecado e a entrada na vida da Santíssima Trindade através da configuração com o mistério pascal de Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, 1239).

III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ

Chama a atenção que o ser humano, para ser feliz, necessite de outros, de outros “tu” humanos como ele. Ninguém pode achar a felicidade na solidão. Ao contrário, o que tanto tememos é ficar sozinhos. Isso é o que menos queremos, pois uma profunda tristeza e desolação inunda quem carece de alguém que o ame e a quem possa amar.

Enquanto a tristeza inunda quem se acha existencialmente sozinho, a alegria e a felicidade transbordam do coração de quem experimenta o amor e a comunhão com seus seres amados. Sim, a mais autêntica e profunda felicidade procede da comunhão das pessoas, comunhão que é fruto do mútuo conhecimento e amor. Sem o outro, e sem o Outro por excelência, a criatura humana não pode chegar a ser feliz, porque é impossível que se realize como pessoa humana.

Sem dúvida parece muito contraditório que a felicidade de alguém seja encontrada não em si mesmo, e sim “fora de si”, quer dizer, no outro, na comunhão com o outro. A opção pela auto-suficiência, pela independência dos outros, por não amar a ninguém para não sofrer, pelo próprio egoísmo, afasta cada vez mais do coração humano a felicidade que tanto busca e está chamado a viver. Quem, por qualquer razão, opta por fechar-se aos outros termina frustrado e amargurado em sua busca pela felicidade, concluindo equivocadamente que esta realidade não existe, que é uma bela mas inalcançável ilusão para o ser humano. O fracasso na busca não se deve à sua inexistência, mas sim ao fato de que se escolheu o caminho equivocado.

E por que o Senhor Jesus quis nos falar da intimidade de Deus? Por que é tão importante que o ser humano saiba algo que é tão incompreensível para a mente humana? Deus uno, e ao mesmo tempo três pessoas? Sem dúvida podemos encontrar uma razão poderosa na afirmação de Santa Catarina de Siena: «Em sua natureza, deidade eterna, conhecerei minha natureza». O ser humano é um mistério para si mesmo, e «para conhecer o homem, o homem verdadeiro, o homem integral, é necessário conhecer Deus» (S.S. Paulo VI). Conhecer Deus, o Mistério da Santíssima Trindade, é conhecer minha origem, é compreender o mistério que sou eu mesmo, é entender que eu fui criado pessoa humana por Deus-Comunhão de Amor para participar de sua mesma vida e comunhão, para participar da mesma felicidade que Ele vive em si mesmo.

Assim, o que o Senhor Jesus nos revelou do mistério de Deus joga uma luz poderosa sobre nossa própria natureza, sobre as necessidades profundas que experimentamos, sobre a necessidade que temos de viver o amor de Cristo e a comunhão com outras pessoas semelhantes a nós para nos realizarmos plenamente. Com efeito, criados à imagem e semelhança de Deus, criados por quem é Amor e para o amor, precisamos viver a mútua entrega e acolhida que as Pessoas divinas vivem entre si para chegar a ser verdadeiramente felizes. E o caminho concreto para viver isso não é outro senão o que Jesus Cristo nos mostrou, o da entrega aos outros, do amor que se faz dom de si mesmo no serviço aos irmãos humanos e na reverente acolhida do outro: «amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 15,12).

IV. PADRES DA IGREJA

São Gregório Nacianceno: «Acima de tudo, guardem-me este bom depósito, pelo qual vivo e combato, com o qual quero morrer, que me faz suportar todos os males e desprezar todos os prazeres: quero dizer a profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Confio-lhes isso hoje. Por ela lhes introduzirei dentro em pouco na água e lhes tirarei dela. Dou-a a vocês como companheira e padroeira de toda sua vida. Dou-lhes uma só Divindade e Poder, pois existe Uma nos Três, e contém os Três de uma maneira distinta. Divindade sem distinção de substância ou de natureza, sem grau superior que eleve ou grau inferior que abaixe… É a infinita conaturalidade de três infinitos. Cada um, considerado em si mesmo, é Deus todo inteiro… Deus os Três considerados em conjunto… Nem comecei a pensar na unidade e já a Trindade me banha com seu esplendor. Nem comecei a pensar na Trindade e já a unidade me possui de novo».

Santo Ambrósio: «professaste — não o esqueças — tua fé no Pai, no Filho, no Espírito Santo. Vive conforme o que fizeste. (…) Recorda tua profissão de fé no Pai, no Filho, no Espírito Santo. Isto não significa que creias em um que é o maior, em outro que é menor, em outro que é o último, mas sim que o próprio tom de tua profissão de fé te induz a crer no Filho tal como no Pai, no Espírito tal como no Filho».

Santo Antonio de Pádua (Doutor da Igreja): «O Pai, o Filho e o Espírito Santo são da mesma substância e de uma inseparável igualdade. A unidade reside na essência, a pluralidade nas pessoas. O Senhor indica abertamente a unidade da divina essência e a Trindade das pessoas quando diz: “batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Não diz “nos nomes” e sim “no nome”. Assim nos ensina a unidade na essência. Mas, prosseguindo, emprega três nomes, para nos ensinar que há três pessoas».

V. CATECISMO DA IGREJA

233. Os cristãos são batizados «em nome» do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e não «nos nomes» deles porque não há senão um só Deus – o Pai Onipotente, o Seu Filho Unigênito e o Espírito Santo: a Santíssima Trindade.

O mistério central da fé

234. O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É o mistério de Deus em si mesmo. E, portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé e a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na «hierarquia das verdades da fé». «Toda a história da salvação não é senão a história do caminho e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e único, Pai, Filho e Espírito Santo, Se revela, reconcilia consigo e Se une aos homens que se afastam do pecado».

237. A Trindade é um mistério de fé em sentido estrito, um dos «mistérios ocultos em Deus, que não podem ser conhecidos se não forem revelados lá do alto». É verdade que Deus deixou traços do seu Ser trinitário na obra da criação e na sua revelação ao longo do Antigo Testamento. Mas a intimidade do seu Ser como Trindade Santíssima constitui um mistério inacessível à razão sozinha e, mesmo, à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo.

240. Jesus revelou que Deus é «Pai» num sentido inédito: não o é somente enquanto Criador: é Pai eternamente em relação ao seu Filho único, o qual, eternamente, só é Filho em relação ao Pai: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai, nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (Mt 11, 27).

242. Na esteira deles, seguindo a tradição apostólica, no primeiro concílio ecumênico de Niceia, em325, a Igreja confessou que o Filho é «consubstancial» ao Pai (44), quer dizer, um só Deus com Ele. O segundo concilio ecumênico, reunido em Constantinopla em 381, guardou esta expressão na sua formulação do Credo de Niceia e confessou «o Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, luz da luz. Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai».

243. Antes da sua Páscoa, Jesus anuncia o envio de um «outro Paráclito»(Defensor), o Espírito Santo. Agindo desde a criação e tendo outrora «falado pelos profetas», o Espírito Santo estará agora junto dos discípulos, e neles, para os ensinar e os guiar «para a verdade total» (Jo 16, 13). E, assim, o Espírito Santo é revelado como uma outra pessoa divina, em relação a Jesus e ao Pai.

244. A origem eterna do Espírito revela-se na sua missão temporal. O Espírito Santo é enviado aos Apóstolos e à Igreja, tanto pelo Pai, em nome do Filho, como pessoalmente pelo Filho, depois do seu regresso ao Pai. O envio da pessoa do Espírito, após a glorificação de Jesus revela em plenitude o mistério da Santíssima Trindade.

Chamados A participar da vida de Deus, Comunhão de Amor

260. O fim último de toda a economia divina é o acesso das criaturas à unidade perfeita da bem-aventurada Trindade. Mas já desde agora nós somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade: «Quem me tem amor, diz o Senhor, porá em prática as minhas palavras. Meu Pai amá-lo-á; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23):

1997. A graça é uma participação na vida de Deus, introduz-nos na intimidade da vida trinitária: pelo Batismo, o cristão participa na graça de Cristo, cabeça do seu corpo; como «filho adotivo», pode doravante chamar «Pai» a Deus, em união como seu Filho Unigênito; e recebe a vida do Espírito, que lhe infunde a caridade e forma a Igreja.

VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO (conforme textos publicados)

«À luz do mistério trinitário — onde descobrimos, não sem assombro e maravilha, o Pai comunicando, como perfeito gerador, a natureza divina ao Filho e o amor mútuo do Pai e do Filho: o Espírito; e como Comunhão criadora e reconciliadora vemos sua ação criando e reconciliando —, como ensinamento de vida, recebemos a consciência do valor da pessoa, sua abertura dialogal, assim como a necessária dimensão comunicativa dos bens, acima de tudo os pessoais: os talentos que o Senhor nos concedeu; e também, obviamente, os bens perecíveis.

»Então como um dom que o mistério trinitário ilumina na vida humana temos a dimensão pessoal, aberta ao encontro, comunicativa e serviçal da existência, como projeto a realizar a partir da própria liberdade acolhendo o Plano divino.

»Igualmente, o mistério ilumina a realidade do valor infinito de cada ser humano, que é irredutível aos outros: a dimensão de valor da pessoa, de onde surge a ideia da missão própria contemplada no Plano de Deus desde todos os tempos. Cada qual, segundo o desígnio divino impresso em sua natureza, vê brotar na originalidade de seu existir uma missão que constitui caminho de realização para a plenitude da felicidade no Senhor. Tudo isto é realidade decisiva para a pessoa, iluminada extraordinariamente ao descobrir, pela revelação da comunhão da Trindade na unidade, que cada pessoa é para a outra a partir de sua singularidade inconfundível.

»Também como ensinamentos para a vida concreta, que brotam da contemplação do mistério da Trindade criadora, temos que, ser pessoa é estar em reverente abertura ao outro. Os outros não são o inferno, como dizia Sartre, e sim um convite a plenificar-me pela comunicação e pelo amoroso serviço. Comprometer-me no serviço a todos, mas preferencialmente aos mais necessitados e pobres, é desdobrar-me a partir da permanência de meu ser, em posse de minha liberdade, realizando-me no encontro com o irmão. Quão claramente se percebe isso no texto do Evangelho segundo São Mateus (ver Mt 25, 31-46) onde se descreve a cena do julgamento final, ou na prece de Jesus no Evangelho segundo São João (ver Jo 17)!»