HOMILIA DA VIGÍLIA PASCAL

Por Padre Fernando Genú SCV 

“Ó culpa tão feliz que mereceu a graça de um tão grande Redentor!” (Palavras do Pregão Pascal)

Essa frase, que nos acompanha desde o século IV da nossa era, trata de expressar uma profunda verdade, que é a razão da nossa alegria! A luz de Cristo brilhou sobre as trevas do pecado! Cristo redimiu a “antiga culpa”! A vida triunfou sobre a morte e por isso estamos alegres! Deus –como cantava o salmista– foi grande conosco!

Já algumas vezes conversei com vocês sobre o significado de “redimir”. Redimir vem de duas palavras: “re” (que indica repetição) e “emere” (comprar). Então, redimir significa “comprar de novo”. Entendamos. Pelo nosso pecado, o mal e, consequentemente, o Maligno, adquire um certo poder sobre nós. De certa forma nos convertemos em seus escravos. (Acaso não experimentamos o pecado como escravidão tantas e tantas vezes nas nossas vidas, a escravidão do “querer deixar” e não conseguir?) Figurativamente, podemos dizer que ele nos comprou (nós nos vendemos) pelas mesmas 30 moedas de prata pelas que Judas “vendeu” Jesus. Sim, um preço excessivamente barato, mas é que quando pecamos não somos conscientes do nosso valor!

Pois bem, Cristo é consciente do nosso pecado. É consciente da nossa escravidão. E nos “compra” de volta para Deus. Nos redime. Só que o preço é muito mais alto! São Paulo não se cansa de dizer nas suas Epístolas: “Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate” (1 Cor 6,20; 7,23) e Pedro dirá “Sabeis que não foi com coisas perecíveis, isto é, com ouro ou com prata, que fostes resgatados… mas pelo sangue de Cristo” (1 Pe, 1,18). Cristou redimiu-nos pelo alto preço do seu sangue! A conclusão de ambos, Pedro e Paulo, é óbvia: “Glorificai a Deus por isso!”

Para isso estamos aqui hoje! Para glorificar a Deus. Em primeiro lugar, porque Ele está vivo! Deus não está morto, como pensam e insistem alguns. Hoje celebramos a vida de Deus, uma vida eterna! Que ao ser participada por nós recebe o nome de Ressurreição. Ressuscitar é participar da vida de Deus… sempre! Em segundo lugar, queremos glorificar a Deus porque Ele penetrou nos mistérios da nossa humanidade e os revelou para nós. É como um “saca-rolha”. Vai penetrando até que puxa com força e… oferece a nós um vinho novo. Cristo penetrou nas trevas da morte e tirou-nos com força dali… e ofereceu-nos a novidade da Ressurreição.

Por isso, afastemos de nós qualquer sombra de tristeza… entremos na alegria da Ressurreição! Cuidado que os bens perecíveis deste mundo e as preocupações da vida te estejam tornando um morto em vida. Um cristão que ficou simplesmente na crucifixão. Eleva os olhos para contemplar a luz do ressuscitado!

Por isso, evitemos qualquer dicotomia ou separação em nossas vidas: Deus é quem verdadeiramente nos humaniza! Não é Deus ou o homem e, sim, Deus e o homem. Ele nos liberta, redime, eleva, personaliza! Cuidado quando queiras viver uma vida separando só os domingos (quando muito) a Deus… Nele somos mais nós mesmos!

Por isso, aprendamos a viver nesse dinamismo de dor-alegria, de morte para a vida, de perde-ganha, de humilhar-se para elevar-se… esse dinamismo tão, mas tão evangélico. Assim, cuidado com as alegrias passageiras, os bens perecíveis, as soberbas e êxitos da vida. Vejam o quanto eles podem estar te afastando de Deus. Vejam o quanto eles te afastam de ti mesmo. O que termina sendo o mesmo.

Cristo, meus caros irmãos, comprou-nos “a preço” e, agora, é o nosso Senhor!

Mas, como viver esse senhorio de Cristo em nossas vidas?

Penso em algumas coisas:

1) “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor 10,31).
Em casa, no trabalho, na Igreja… não nos acostumemos a pequenas mentiras, a pequenos desvios, a uma vida corrupta… ofereçamos a nossa vida a Deus, especialmente através de pequenos gestos de amor e misericórdia. Sim, se nos acostumamos a fazer bem as pequenas coisas, nos educamos a ser fieis nas grandes questões da vida.

2) “Vós ainda não resististes até o sangue em vosso combate contra o pecado” (Heb 4,12).
A vida cristã é um combate espiritual. Uma luta verdadeiramente à morte contra o mal, contra o pecado. Às vezes realmente sentimos a dureza desse combate nas nossas vidas. E vem aquele desespero, aquele desânimo… hoje devemos recuperar o alento, romper qualquer trégua com o mal, com a consciência de que Deus nos convida a ser testemunhas da força da Ressurreição.

3) “Para mim a vida é Cristo” (Flp 1,21).
São Paulo experimentou em carne própria o poder da Ressurreição. O Ressuscitado transformou a sua vida! Transformou-a de tal maneira que ele considerava Cristo com o centro, a razão do seu viver. Por Cristo, Paulo gastava-se e desgastava-se em sua entrega aos demais. O próprio Cristo deu-lhe o exemplo, para que seguisse seus passos (ver 1 Pe 2,21).

Que a luz do Ressuscitado traga nova vida a cada um de nós e que possamos fazer com que a sua luz, a luz de Cristo, possa iluminar até mesmo aqueles cantinhos escuros mais esquecidos das nossas vidas e sociedade.

Feliz Páscoa da Ressurreição!

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