HOMILIA DO 19º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Padre Fernando Genú SCV

Hoje as leituras nos servem de porta de entrada para meditar sobre a fé e a esperança. Gostaria de começar com a segunda delas. A esperança –segundo o Catecismo da Igreja Católica– é “a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo.” Fica claro, então, que o objeto último de nossa esperança é a vida eterna. Então cabe a pergunta que o Jovem Rico fez um dia a Jesus: “Mestre bom, o que devo fazer para alcançar a vida eterna”? Ou, em outras palavras, o que fazer para alcançar o Reino dos Céus, a salvação, a Pátria eterna?

No Capítulo da Carta aos Hebreus que lemos na segunda leitura de hoje, o autor sagrado coloca a fé como o caminho para aquele que deseja a Pátria eterna (o que o Catecismo chama “pôr a nossa confiança nas promessas de Cristo”). Narra a experiência dos antepassados, especialmente de Abraão e Sara –pais do povo judeu– de peregrinar na fé. Só que, ao mesmo tempo, afirma que eles não viram o cumprimento da promessa, ou seja, não foram testemunhas de Cristo.

Nesse sentido, é muito interessante a centralidade que o autor da Epístola aos Hebreus atribui a Cristo: Ele é o cumprimento da promessa! É por isso que podemos afirmar que “a fé é um modo de já possuir o que se espera”. Pela fé já se possui algo desse Reino que se espera, já é possuída de alguma forma a vida eterna. Cristo antecipa a Pátria que Deus preparou para aqueles que tem fé.

É por isso que podemos responder à pergunta “O que nos dá a fé?” o seguinte: A vida eterna.

Mas como assim? Como a fé já nos pode dar algo da vida eterna? Aqui é interessante introduzir o que São Paulo disse na sua Primeira Epístola aos Coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, inútil é a nossa pregação e vã é a nossa fé”. Qual é a relação entre a fé e a ressurreição?

Pela ressurreição, não só ficou claro para os Apóstolos quem era Jesus Cristo, mas também foi vencido o último dos inimigos: a morte. Na Ressurreição de Cristo foi-nos aberto o acesso à vida que Cristo insistentes vezes anunciou aos seus Apóstolos: a vida eterna.

Então, pela Ressurreição nos vem a fé em Jesus e essa fé nos traz a vida eterna. Não só como promessa, mas também como uma realidade já alcançada. É o que na Teologia se diz como o “já, mas ainda não”. Uma comparação que poderíamos fazer é a de um time de futebol campeão já antes de terminar o campeonato pois não pode ser alcançado em número de pontos por nenhuma outra equipe. Já é campeão, porém ainda não o é formalmente. Tem que esperar até que termine o campeonato para receber o troféu e as faixas. É por isso que podemos dizer com o Papa Bento XVI que “no Batismo já ressuscitamos com Cristo, mas esperamos que se cumpra plenamente o que já agora recebemos”.

Sim, mas concretamente como repercute nas nossas vidas esse “já”, essa vida eterna já recebida? Essa pergunta tem especial sentido ao perceber que a vida que nós vivemos definitivamente não é a vida eterna. A vida atual, temporal, é marcada pelas coordenadas do espaço e do tempo e, assim, pelo material e passageiro. É também marcada pelas consequências do fato de estarmos feridos pelo pecado. Estamos na lógica ainda do perde-ganha, do vem-vai, da dor-alegria. Dinâmica que muitas vezes chega a tirar-nos gosto do viver, a experimentar a vida como um verdadeiro peso.  Mas ao mesmo tempo que é capaz de suscitar em nós o desejo do eterno, especialmente quando vivemos a experiência do amor.

Pois bem, a primeira repercussão é OBJETIVA: sabemos que já ganhamos uma vida que não terminará nos limites do tempo e do espaço, da morte física, mas que recebemos a VIDA ETERNA, conquistada pela morte e ressurreição de Cristo. Isso é uma realidade, certeza, que não depende dos nossos pontos de vistas ou sentimentos.

A segunda é mais SUBJETIVA: nos alegramos e enchemos de esperança pelo acontecimento da Ressurreição que apoia a fé, pois sabemo-nos queridos por Deus, quem nos salva e oferece a Pátria eterna, e sabemos para onde devemos dirigir os nossos passos neste mundo que, pela fé, é entendido como passageiro ante o Reino que se espera: definitivo, permanente, eterno.

Conscientes disso, qual deveria ser a atitude de quem espera?

A primeira é amar. Isso não está claro nas leituras de hoje. Por isso acho que vale a pena enfatizá-lo. É o amor que nos leva a “esperar a volta do Senhor” e “fazer a sua vontade”.

Por isso levamos “acesas as lâmpadas” e “cingidos os rins”. As “lâmpadas acesas” são símbolo da vigilância de quando se espera algo ou alguém. Ajuda a enxergar bem e a afastar o sono, o letargo que vem com a escuridão. Manter a lâmpada acesa requer particularmente a luz que vem da oração, lembrando-nos do que dizíamos no início ao definir a virtude da esperança: “apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo”. A salvação é sobretudo um dom, uma graça de Deus.

Porém, em segundo lugar, devemos levar os “rins cingidos” são símbolo da preparação para o trabalho. Cingir os rins para os judeus era passar uma corda ao redor da cintura para amarrar a túnica longa, de modo que ela não atrapalhe na hora dos labores diários. Levar cingidos os rins significa então essa atitude de trabalho de quem quer fazer a vontade do seu Senhor.

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Preparemo-nos, caros amigos, para a chegada dessa Pátria eterna prometida pelo Senhor. Rezemos. Trabalhemos. Mas também saibamos viver essa vida eterna que vem antecipadamente, seja recebendo a graça de Deus –que nos vem de maneira única na Eucaristia–, seja amando a Deus e aos demais no nosso dia a dia.

 

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