Meditação para a Sexta-feira Santa

Por Padre Fernando Genú

 

Fiz uma opção pelo silêncio. Não dei homilia. A igreja contempla essa possibilidade. Depois da leitura do Evangelho da Paixão, falei o seguinte aos presentes: “Quando uma pessoa morre, isso suscita em nós as mais distintas reações: pena, dor, vazio, lágrimas. Penso que a reação em nós dependa sobre tudo de 2 coisas: da importância da pessoa que se vai (pode ser um presidente, um padre, um parente ou um pai…) e da relação dessa pessoa conosco (próxima, distante, única, amical etc.). Bom, Cristo morreu. Morreu realmente. Qual é a tua reação? Gostaria que você agora pensasse em qual é a importância de Cristo para ti e qual é a tua relação com Ele. Da resposta a ambas será a qualidade da tua celebração de hoje, da tua adoração ou indiferença diante da Cruz.”

Além disso, preparei uma breve meditação sobre o dia de hoje. Que amanhã vocês tenham uma Feliz Páscoa da Ressurreição.

DUAS BREVES MEDITAÇÕES NA SEXTA-FEIRA SANTA

A cada 141 anos ocorre algo realmente simpático em termos da nossa fé. No dia 25 de março deste ano, coincidem o dia em que a Igreja tradicionalmente celebra a Anunciação-Encarnação e a celebração da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este dia no qual os dois mistérios unem-se no calendário é chamado pela Igreja como o “Grão Perdão”.

Encarnação e Paixão, Vida e Morte, Início e Consumação, Saída e Volta… enfim, são tantas as maneiras a partir das quais podemos aproximar-nos ao dia de hoje, marcado por esses dois mistérios. Ambos como uma obra de arte divina que daria ao mundo seus verdadeiros contornos. E, se na Encarnação teve uma importância fundamental o “Faça-se” de Maria, na Paixão foi o “Faça-se” de Cristo que decorou a cena.

Ao contemplar tais eventos com a serenidade que nos oferece a distância histórica de ambos, podemos dizer que vale a pena dizer “sim” a Deus. É um “sim” que não está isento de dificuldades, esperas, apostas e dor. Mas é um “sim” que tem rumo certo, que humaniza e constrói uma verdadeira cultura, pois tem como garante a ninguém mais do que o Senhor de toda a História.

Hoje ao ver como os pecados da humanidade, os nossos pecados, desfiguraram o Senhor, fiquei pensando em que quando dizemos “não” a Deus somos testemunhas de verdadeiras tragédias. Convertemos esse “paraíso” dos inícios da nossa história em um terreno baldio, abandonado, sem dono e cultivo. Nesse “não” temos um verdadeiro poder deicida e é o que hoje contemplamos: Deus morre na Cruz. Não há exagero algum aqui. É o que aconteceu… e acontece cada vez que lhe dizemos não. Isso sim, sem derramamento de sangue, mas com a crueldade do “não” à verdade, à misericórdia, à bondade e à beleza. O pecado –que é essencialmente um “não a Deus– tem esse poder essencialmente destrutor, homicida, deicida.

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Tenho uma grande dificuldade de falar da Cruz. Da Cruz não no seu sentido simbólico, analógico, mas da Cruz do Gólgota. Sexta-feira da Paixão pra mim é um dia no qual me sinto meio perdido, como aquela sensação de quando te roubam algo e você não sabe o que pensar e, menos, dizer. Sinto que hoje me roubaram algo… e me sinto ao mesmo tempo parte dos ladrões. E que Cristo, que foi o que foi roubado, me devolverá a si mesmo amanhã. Entenderam o drama? Entenderam a confusão? Para desvendar uma trama assim, só o próprio Deus… só o próprio Deus.

É por essa e outras razões que hoje prefiro mormente calar-me. Prefiro escutar a Deus, que nos fala através do megafone da Cruz. Sei que sou lento para interiorizar as coisas que diz e, por isso, me guardarei para a Vigília da Páscoa onde, à luz da Ressurreição, estou mais capacitado a entender tudo e, assim, ser uma espécie de caixa de ressonância para os demais, pouco potente, mas funcional.

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